Estórias e história
Eu vou contar para vocês, estórias envolventes. De minha família, de italianos, espanhóis e portugueses, descendentes. Falarei de situações que vivi, ouvi e percebi.
Nas estórias, resgatarei a história. Descreverei cenários, fatos, relatos e os situarei, em que momentos e contextos históricos se desenvolveram. Quero que você conheça e perceba, no espaço e no tempo, como vivemos em outros tempos, nem melhores, nem piores, mas distintos dos atuais.
Meus contos são inspirados em fatos, vividos, vistos e contados, por amigos, parentes e meus pais. Bom seria se tivessem sido filmados, fotografados, mas isto não estava ao alcance dos personagens principais.
Ocorreram quando filmadora e máquina de fotografar não eram acessíveis para as famílias de lavradores, que viviam do que produziam em suas terras, próprias ou arrendadas. Celular, então, só passou a existir depois de muitos carnavais.
Falo mais das seis primeiras décadas do século XX, mas faço rápidos mergulhos no tempo, para trás e para a frente. Meus personagens principais são minha família ampliada, meus parentes, de imigrantes europeus descendentes, que viveram na região onde nasci, no noroeste do Estado de São Paulo.
Para compreender a realidade vivida pelos descendentes africanos e europeus foi preciso mergulhar mais fundo na história de nosso país. Resgatar a história para melhor ilustrar nossas estórias. As imigrações forçadas e as voluntárias, do homem pré-histórico, dos africanos, traficados e escravizados e dos europeus, dos quais sou descendente.
Recuperar estes momentos históricos nos traz sabedoria e emoção, alegria e decepção. Mas, relembrar o que vivi e convivi, me trouxe uma felicidade imensa, muita força e crença. Em sua jornada, a humanidade viveu muitas dificuldades e percorreu caminhos marcados pela crueldade.
Porém, também realizou descobertas, criou, inventou e proporcionou muitas alegrias. É maravilhoso recordar e compartilhar sobre aquele tempo. Narrar os desafios e as tristezas, os desastres e a beleza, daqueles que viveram naquele tempo e lugar, muito mais integrados à natureza.
É comovente falar sobre aquela gente, seus rituais, cultura, costumes e os ambientes, transformados pela foice e pelos arados. Houve muitas mudanças, mas nada se compara à velocidade e à destruição dos tempos atuais.
Espero que as novas gerações usem seus celulares e computadores para viajar no tempo, investigando as vidas levadas em tempos passados por seus pais, avós, bisavós ou por qualquer pessoa que seja. Serão viagens inesquecíveis que os ajudarão a compreender que o presente é resultado do que ocorreu no passado, assim como o futuro será produto do que se faz no presente.
Vocês, da atual geração, têm em mãos possibilidades que eu não tive. Podem acessar, se comunicar, estudar e conhecer todo o planeta; se tornarem sujeitos, não de um pequeno lugar rural, mas de um mundo complexo, fantástico e em constante transformação.
As rígidas regras e costumes das comunidades rurais daquele tempo foram quebradas com o tempo. Transformações ainda maiores sofreram aqueles que vivem nas metrópoles. Vocês já vivem em um mundo conectado, onde se pode conhecer e atuar, em ambientes virtuais mundiais.
As ferramentas informáticas e telemáticas; a realidade virtual, os instrumentos de comunicação e meios de transporte possibilitam viagens incríveis, tão fantásticas quanto as realizadas por Júlio Verne, que ainda hoje leva seus leitores a se transportarem para 1866, para com ele navegarem suas 20 mil léguas submarinas.
Você deve acrescentar às suas viagens corporais, os mergulhos mentais, no espaço e no tempo. Se quiserem ser protagonistas de suas próprias histórias precisam mergulhar fundo, conhecer e vivenciar as possibilidades deste mundo.
Vocês podem fotografar e filmar, mas precisam experimentar, sentir e viver as realidades fotografadas e filmadas. Vocês podem e devem ocupar suas posições nos diferentes e incríveis cenários. Mas não passarão de uma imagem se não carregarem consigo as sensações percebidas, nas interações com o ambiente e com os seres que nele vivem.
Tão importante quanto conhecer como vivem os povos e as belezas de cada canto de nosso planeta é descobrir e conhecer o passado, os desafios superados, as descobertas, as criações e invenções, de gerações que viveram em tempos diferentes dos atuais.
A evolução da nossa civilização não é linear e nem ocorre da mesma forma em todo o planeta. A escuridão, derivada da ignorância religiosa que predominou na idade média, sobreviveu às revoluções e iluminações. Como se fosse algo demoníaco, os dogmas que justificaram as perseguições de religiosos, de inventores, cientistas e mulheres na idade média reapareceram para atormentar a vida das gerações atuais.
Tratados como bruxos e bruxas, milhares foram os homens e mulheres caçados, presos e queimados vivos, sob os olhares e deleite de multidões, que se moviam e agiam tomados pela irracionalidade. São demônios que ainda habitam as mentes e corações de parte da nossa gente e alimentam o ódio contra negros, indígenas, homossexuais e qualquer ser humano que discordar de seus dogmas religiosos e loucuras pessoais.
As guerras religiosas, como as cruzadas, que mataram milhares de seres humanos em nome de Deus, ressurgem sob novas formas. Já não são apenas aqueles que perseguiram e crucificaram Cristo, nem os que promoveram a guerra entre católicos e muçulmanos. Em nome de Jesus, ódios e discriminações de todos os tipos são espalhados pelo mundo, fomentando a violência e a intolerância.
No Brasil, em especial contra as culturas e crenças dos povos indígenas e, destacadamente, aquelas de origem africana, como umbanda e candomblé. Em nome da fé, os sete pecados capitais, se fazem presentes na violência cotidiana, executada por motivos fúteis.
As descobertas científicas e as ideias iluministas, os avanços civilizatórios e a superação da época das trevas são combatidas por argumentos simplistas e alegações sem qualquer comprovação científica. Vez por outra, emergem da escuridão ideias retrógradas e culturas pautadas na violência entre os seres humanos e destes com a natureza. Tudo se transformou em mercadoria, inclusive a religião, que tem rendido volumosos recursos a exploradores especializados na manipulação da fé alheia.
O homem foi à lua e de lá viu e fotografou nosso redondo planeta. Inúmeros satélites giram ao redor da terra, fotografam e transmitem imagens em tempo real, não deixando dúvidas sobre suas características. Nada disso impede a cegueira imposta por dogmas de seitas religiosas, que têm levado milhares de seres a acreditar que a terra é plana.
As cidades foram criadas para facilitar o comércio e melhorar a defesa contra os bárbaros. Tudo parecia resolvido, mas não, os bárbaros com os comportamentos mais violentos e agressivos continuam entre nós. Habitam, dominados por forças demoníacas, a alma de milhares de seres humanos, que em nome de crenças e por motivos fúteis, agem como bárbaros modernos, se armam e atacam quem pensa ou age diferente de suas crenças.
Dos sete pecados capitais, a gula, a ira, a luxúria e a soberba têm se generalizado. Gula e ganância são irmãs e se proliferam facilmente em um mundo dominado pelas mercadorias, principalmente pela força do dinheiro. A luta, sem critérios e a qualquer custo, pelo poder e as guerras e conflitos religiosos são apenas aparências que mascaram a avareza, a luxúria e a busca incansável por mais riqueza.
A ignorância e o período das trevas não foram inteiramente superados com o fim da monarquia, com a evolução civilizatória decorrente das ideias iluministas, nem pelos acordos de paz, realizados após a II Guerra Mundial, com a criação da ONU. Na verdade, a humanidade não tem tido um minuto sequer de paz.
Conto minhas estórias vividas no Córrego da Panela para resgatar uma viva dura, difícil, mas vivida em paz, onde brancos e negros, mesmo em uma região dominada pelo escravagismo, viviam e sabiam conviver harmonicamente.
As desigualdades se faziam presentes e marcavam a vida e o futuro das famílias. Distintas eram as situações de colonos negros, descendentes das famílias escravas, daquelas dos lavradores brancos, que arrendavam suas terras. Maiores ainda eram as diferenças entre colonos, meeiros e arrendatários com os proprietários das terras.
Mas, nada comparável às vidas carregadas de ódio e de violências assustadoras, como as presenciadas e vividas nesta terceira década do século XXI.
É por isto que convido vocês a fazerem esta viagem comigo e a organizarem as suas. Viajar no espaço e no tempo, olhando a diversidade da natureza e da vida, tudo como se fosse uma miragem. Revisitar os tempos e vivenciar os movimentos. Conhecer os desbravadores, os conservadores, os revolucionários e os reacionários.
Pensar como Júlio Verne, quando escreveu “viagem ao centro da terra” e “20 mil léguas submarinas”. Colocar-se na posição dos autores da “jornada nas estrelas”, ou ainda, prospectar o futuro, como fez George Owel, em 1948, quando imaginou como seria a vida em “1984”, livro que se tornou um clássico. O que dizer então de “2001, uma odisseia no espaço”, filme dirigido por Stanley Kubrick, tratando da evolução humana, do existencialismo, da tecnologia, da inteligência artificial e da vida extraterrestre, em perspectiva, pois foi filmado em 1968.
Viage comigo lendo este livro. A nossa viagem é pequena. Vamos caminhar apenas alguns quarteirões no tempo e no espaço. Mas, por menor que seja, toda viagem traz iluminação, mexe com as mentes e, espero, com os seus corações.
O café foi substituído na região de Viradouro e Bebedouro pela laranja, mas mantida ainda muito da policultura. Com a chegada da cana, as terras foram tomadas por canaviais. Os trabalhadores saíram pelo cano. As terras foram arrendadas e as lavouras mecanizadas.