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Luiz Azevedo

Mestre em sociologia pela UFSC e assessor da CUT

Merecidamente, Wagner Moura foi premiado no festival de Zurique pelo seu protagonismo no filme “O Agente Secreto”, posicionando-se muito bem para a disputa de um possível Oscar. Não abordamos no livro “Inquietude”, escrito por mim e pelas minhas filhas Isabella Jinkings e Yaná Jinkings de Azevedo, este premiado e espetacular filme, nem o documentário dirigido por Maria Augusta Ramos, nem a Operação Lava Jato e tampouco as torturas na Torre das Donzelas. O livro já está na gráfica e será lançado em São Paulo, no Canto Madalena, dia 7 de novembro, às 19h30 horas.

Mas, o filme protagonizado por Wagner Moura leva-nos a refletir sobre a inquietude de quem viveu a segunda metade da década de 1970, quando foi assassinado Vladimir Herzog e também militantes vinculados ao PCdoB na Avenida São João, embaixo do Minhocão. Em 1978, fui detido, interrogado, mas liberado com um argumento estapafúrdio de que fui confundido com um ladrão de carros.

Os defensores do retorno da ditadura sabem – ou se fazem de desinformados -, que o regime militar, o SNI, o Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), o DOPS, dentre outros órgãos repressivos, agiam de forma violenta contra qualquer ser humano que lhes parecesse suspeito. Aprendemos a conviver com a presença dos agentes secretos em nossas reuniões, assembleias e atos. E isto nos deixava inquietos. Imagine a inquietude, essa sensação de desassossego, que tomou conta do dia a dia dos promotores da Operação Lava Jato e de suas vítimas, detidas sem provas, podendo serem premiadas se fizessem algum depoimento forte contra Lula.

Imagine a inquietude de Dilma Roussef e de Eleonora Menegucci presas com menos de 20 anos na “Torre das Donzelas”, nome criado pelas detentas como uma forma de ironia e resistência. A palavra “donzelas” era usada em sarcasmo, contrastando a imagem de pureza e delicadeza associada ao termo com a dura realidade de mulheres militantes, guerrilheiras e ativistas que eram presas, torturadas e resistiam bravamente ao regime. Era uma forma de ressignificar o espaço de opressão com uma identidade própria, ainda que dolorosa. Entre as prisioneiras mais famosas que passaram por lá está a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff e Eleonora Menegucci, que foi Ministra da Secretaria das Mulheres no governo Dilma.

A inquietude é uma condição inerente à existência humana, uma busca incessante por sentido em um mundo que, frequentemente, se revela caótico e desprovido de respostas fáceis. O filme “O Agente Secreto”, embora estilizado e com um tom de aventura, mergulha em um universo de constante tensão e suspeita, um reflexo direto da inquietude existencial de seus protagonistas. Os espiões, por natureza, são figuras deslocadas, obrigadas a viver em um estado de alerta perpétuo, onde a identidade é fluida e a confiança é uma moeda rara e perigosa.

A inquietude, essa força motriz que nos impulsiona à reflexão e, por vezes, nos aprisiona em um labirinto de angústias, encontra um espelho sombrio e contundente no filme “Agente Secreto”, nas atrocidades da “Torre das Donzelas” e no terremoto social provocado pela Operação Lava Jato. Em nosso livro “Inquietude”, exploramos como essa sensação de desassossego é uma condição inerente à existência, uma busca por sentido em um mundo caótico. Ao transpor essa lente para a análise desses três fenômenos, percebemos como a inquietude pode ser a semente da resistência, o terreno fértil para a brutalidade e, ainda, o sintoma de um colapso institucional.

Essa existência no fio da navalha, entre a lealdade e a traição, personifica a inquietude em sua forma mais extrema, um tormento psicológico nascido da suspeita e da incerteza constante. É a inquietude como um modo de vida, uma condição para a sobrevivência em um mundo de segredos.

Essa noção é pervertida e transformada em arma na “Torre das Donzelas”. Ali, a inquietude deixa de ser uma condição existencial para se tornar um instrumento de opressão. As práticas de tortura não visavam apenas extrair informações, mas aniquilar a subjetividade das mulheres, mergulhando-as em um estado de absoluta impotência e desespero. A incerteza sobre o futuro, a dor e a manipulação psicológica criavam uma inquietude permanente e paralisante, uma agonia que buscava quebrar o espírito humano. Aqui, a inquietude é a própria matéria-prima da crueldade, usada para silenciar e destruir.

A Operação Lava Jato, por sua vez, eleva a inquietude a uma escala nacional e coletiva. Se em “Agente Secreto” a suspeita recai sobre indivíduos e, na “Torre das Donzelas”, aos oponentes da ditadura, na Lava Jato a inquietude se tornou sistêmica. A operação foi conduzida e organizada com uma finalidade predeterminada: encontrar algo que pudesse levar à prisão e à cassação dos direitos políticos de Lula, visando retirá-lo da disputa eleitoral de 2018. Para isso, contando com ações em diversas frentes e uma forte aliança com os meios de comunicação, transmitiram a sensação de que o próprio alicerce da nação estava podre, lançando toda a sociedade em um estado de ansiedade, revolta e incerteza.

A atmosfera de suspeita que vimos na ficção do espião tornou-se a realidade de um país inteiro. A confiança nas instituições — governo, congresso, grandes empresas e até mesmo no sistema de justiça — foi abalada. É verdade que a Lava Jato não utilizou a tortura física da ditadura, mas usou e abusou do direito penal do inimigo, como as prisões preventivas prolongadas, as delações premiadas e o constante vazamento de informações para a imprensa. Uma forma moderna de pressão psicológica e de desestabilização.

A inquietude, neste contexto, manifestou-se como insegurança jurídica e a angústia de um futuro imprevisível. O desassossego não vinha mais da ameaça de um inimigo externo ou da violência estatal direta, mas da implosão da ordem estabelecida, da perda de referenciais e da indefensável prisão do presidente melhor avaliado em seus dois mandatos.

Em suma, ao observarmos esses três exemplos pela lente do nosso livro “Inquietude”, afirmamos que “O Agente Secreto” ilustra a inquietude individual e ficcional, um estado de alerta constante; a “Torre das Donzelas” representa a inquietude como arma de opressão, a aniquilação psicológica imposta pelo Estado; a “Operação Lava Jato” simboliza a má-fé como meio de ação política, visando criar um mal-estar generalizado para dele construir uma situação social propícia para a difusão de um candidato de extrema-direita, ex-militar, que simplifica a realidade e adota propostas marcadas pela submissão aos interesses dos Estados Unidos da América, pela intolerância, arrogância e autoritarismo muito em voga na extrema-direita nazifascista.

Estes episódios juntos demonstram a poderosa e diversificada natureza da inquietude, uma força capaz de definir tanto a jornada de um herói solitário quanto de torturadores e torturados, interferindo no destino conturbado de uma nação inteira. A necessidade de antecipar o próximo movimento do inimigo, de decifrar códigos e de manter um disfarce impecável, tanto para os agentes secretos como para a militância forçada a atuar na clandestinidade, gera uma ansiedade que transcende o mero perigo físico, adentrando o campo do tormento psicológico. A própria narrativa do filme, com suas reviravoltas e jogos de poder, espelha a imprevisibilidade da vida, um dos temas centrais de nossa obra “Inquietude”.

Essa representação da inquietude como um estado de alerta e desconfiança encontra um paralelo aterrador na história da “Torre das Donzelas”. Este antigo forte, transformado em centro de tortura durante o regime militar no Brasil, tornou-se um símbolo da supressão da liberdade e da imposição do medo. A inquietude, nesse contexto, deixa de ser uma força criativa para se tornar uma arma de destruição.

A relação entre a inquietude explorada em nosso livro e as torturas na “Torre das Donzelas” reside na manipulação da psique humana. A tortura física era invariavelmente acompanhada de uma tortura psicológica, que buscava desestabilizar a percepção da realidade da vítima, isolá-la e quebrar seu espírito. A incerteza sobre o futuro, a privação sensorial e a dor constante criavam um estado de inquietude permanente, uma agonia que se estendia para muito além das sessões de tortura. Os relatos dos sobreviventes revelam como essa experiência deixou cicatrizes indeléveis, uma inquietude crônica que assombra suas memórias e seus sonhos.

Enquanto em “Agente Secreto” a inquietude é um elemento que impulsiona a trama e confere complexidade aos seus personagens, na “Torre das Donzelas” ela é o próprio instrumento de opressão. A comparação entre a ficção e a realidade brutal da história nos permite compreender a dualidade da inquietude. Se por um lado ela pode ser a chama que acende a busca por conhecimento, por justiça e por uma vida mais autêntica, como defendemos em “Inquietude”, por outro, em mãos autoritárias, ela pode ser utilizada para silenciar, para controlar e para destruir.

Em suma, tanto a narrativa de espionagem de “Agente Secreto” quanto os relatos sombrios da “Torre das Donzelas” servem como estudos de caso sobre as manifestações da inquietude humana. Eles nos mostram como essa força intrínseca, que define nossa busca por sentido, pode ser tanto a aliada da nossa liberdade quanto a ferramenta da nossa opressão, um lembrete contundente da fragilidade da condição humana diante das forças que buscam aprisionar não apenas corpos, mas também mentes.

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